quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Bienal de Dança do ceará em Itapipoca

Centro de Fortaleza e oito cidades do Ceará (inclusive Itapipoca) habitados pela Bienal de Dança do Ceará/De Par Em Par 2010

Artistas de diferentes linguagens que integram a programação gratuita da Bienal Internacional de Dança do Ceará/De Par Em Par 2010 vão habitar o Centro de Fortaleza e oito cidades do Ceará de 01 de outubro e 10 de novembro. Serão dias intensos com a presença de mais de 200 artistas de 42 comanhias, de três países e de oito estados brasileiros. A programação conta com oficinas, proposições, variações, performances, intervenções urbanas, ocupações temporárias de espaços, mostra de vídeos e imagens projetadas. As ações integram o CirculaDança e a 2ª edição do Encontro Terceira Margem - Tomar Lugar – Corpo e Performance. O objetivo é ativar a dança em sua relação com outras linguagens, com a cidade e o lugar.

terça-feira, 11 de maio de 2010

Cia Balé Baião de Dança Contemporânea: pesquisa e experimentalismo no Litoral Oeste do Ceará.

GERSON MORENO – História que se entrelaça a dança:
Comecei a dançar no início da década de noventa em Itapipoca, cidade sem nenhuma tradição acadêmica de dança. Sempre tive necessidade de me expressar pelo corpo em movimentação livre, desgovernada, sem associar isso à dança. Na pré-adolescência costumava me trancar no quarto para liberar meu corpo numa descontrolada movimentação ao som de um gravador velho. Tinha como inspiração os espetáculos de dança que assistia de madrugada na TV enquanto todos dormiam. Além de analisar todos os detalhes das danças assistidas, tinha também que imitá-las tentando aprender os "passos" mais interessantes (geralmente os mais simples).
Certa vez, já na adolescência, assisti na antiga TVE (Televisão Educativa do Ceará) um bailarino solando. Seu corpo movimentava-se lentamente como se estivesse dentro d'água ou caminhando na lua. A partir desse momento quis fazer algo semelhante utilizando-me dos próprios movimentos que criava e passei a montar coreografias em solo para apresentar em eventos culturais da cidade. Nessa época já trabalhava com teatro popular. A experiência de lidar com público como ator alicerçou minhas primeiras tentativas de dançar, principalmente em se tratando de enfrentar grandes públicos como o do Festival Imperatriz da Canção de Itapipoca (FIC), evento no qual solei pela primeira vez. Lembro que apesar do grande nervosismo daquela noite, trazia comigo um grande desejo de mostrar para as pessoas o que eu sabia fazer. Tinha certeza que eu iria ser vaiado, afinal as pessoas não tinham costume de ver o que eu pretendia mostrar, porém, estava pronto para entrar em cena. Sempre fui muito audacioso. Nesse solo apresentava três momentos distintos: primeiro entrava como índio, depois fazia Zumbi dos Palmares e finalmente um mestiço. Sabia que iam rir dos figurinos, das músicas e do próprio movimento que ia mostrar, no entanto, falava mais alto a coragem. Se eu não desse aquilo pra eles quem iria dar e quando? Eu precisava ver o que iria acontecer comigo ao dançar e com as pessoas em geral. Era como um teste particular. Sempre fui curioso.
O que mais me surpreendeu e fascinou nesse solo foi a criação momentânea que nasceu de minha vontade enquanto dançava. O improvisar em plena apresentação (geralmente esquecia as marcações e criava outras) e a transformação do público no decorrer da apresentação, que foi pouco a pouco deixando de vaiar para aplaudir. Não acreditava ainda no que estava acontecendo, sentia-me inteiro, digno, pleno de alegria. Nunca mais parei de dançar.
Com o passar do tempo comecei a montar coreografias para peças teatrais e nisso passei a dividir o que sabia com outras pessoas. Às vezes me sentia meio que mentiroso por não saber muitas vezes o que dizer ou repassar para os outros. O que pra mim era dança estava sendo descoberto em minha prática intuitiva de criação individual. Tudo era muito particular.
Quando não sabia que "nomes dar" ou se faltava idéia de movimento para compor a coreografia, a única alternativa era inventar. Criava imediatamente uma palavra que resumisse o que eu estava querendo repassar ou pedir das pessoas e o próprio grupo era convidado a dar idéias para o término da dança. Rapidamente se resolvia o problema.
Não demorou para que todos começassem a me ver como o “dançarino da cidade”. Ao ouvir isso sempre sentia uma insatisfação comigo mesmo por não me achar merecedor de tal título. Era como se estivesse enganando a muita gente com uma mentira que não conseguia me livrar. Comecei a acreditar que isso poderia dar certo, queria mentir mais, inventar mais ainda que existia dançarino em Itapipoca, que a dança poderia ser possível, palpável, alguém tinha que mentir pelo bem daquela humanidade. Sentia-me desafiado a construir uma dança bem mais consistente, fundamentada em meus anseios de movimentação corporal. Pretendia me tornar seguro naquilo que estava fazendo, mas ainda não compreendia que somente pela intuição isso não seria possível. Foi aí que mais uma vez inventei uma alternativa: resolvi formar um grupo de dança para aprender mais com outras pessoas (dançarinos que descobri nas festas de final de semana). Precisava de um grupo para difundir a dança que começava a ser desenhada em Itapipoca e, sobretudo, para não me sentir o único dançarino da cidade. Desejava testar em outros corpos o que antes havia testado em mim: nascia o "Dance Rua".
Por mais que insistisse na sincronia dos dançarinos criando coreografias a partir dos ritmos e das letras das músicas, (Na época tinha fascinação em dançar os ritmos brasileiros. Coreografias a partir de temas étnicos-culturais e sócio-políticos) e mesmo que insistisse em ensaios enfadonhos, sempre quem acabava errando os "passos" era eu mesmo tendo que apelar para a conhecida improvisação. O público acreditava que meu improviso havia sido ensaiado; quanto aos dançarinos do grupo, passaram a se acostumar com minhas freqüentes improvisações e não mais se admiravam com isso. A vontade de improvisar me levava sempre a incluir nos Shows de Ritmos do Dance Rua um solo meu, onde tinha oportunidade de fazer o que falava mais alto dentro de mim. Mantive esse “estilo” de trabalho durante três anos.
A partir de contatos com Andrea Bardawil (Cia Andanças), Silvia Moura (na época diretora do “Em crise” e hoje coreógrafa do “CEM” : Centro de Experimentos em Movimento), Gero Camilo (Ator cearense que fazia artes cênicas em São Paulo, militante como eu do Movimento de Artistas da Caminhada - MARCA), dentre outros profissionais da área de dança-teatro através do intercâmbio feito pela Secretaria de Cultura de Itapipoca com os mesmos (1996), passei então a me interessar pela dança contemporânea e acabei influenciando os dançarinos do Dance Rua a desenvolvê-la comigo em um novo grupo: o Balé Baião.
O primeiro espetáculo dessa nova fase: "Pátria Sertaneja, a dança do corpo rebelde", foi inteiramente coreografado por mim a partir das descobertas que tive em oficinas de dança, principalmente de seqüências coreográficas que deveriam ser feitas sincronizadamente. A grande ânsia era de "limpar" todos os gestos e movimentos dos dançarinos para que fossem fiéis ao percurso coreográfico em todos os detalhes. Pela primeira vez optei por coreografar um solo meu com marcações invioláveis. Era como se estivesse inconscientemente me preparando para uma futura libertação a partir de um aprisionamento.
Ainda nesse período tive a oportunidade de fazer algumas oficinas de Dança Contemporânea e Clássica. Apesar de achar tudo muito interessante sempre sentia dificuldades em acompanhar as variações que eram repassadas. Com relação ao Balé Clássico, procurava negá-lo por tê-lo como castrador e artificial. Comecei a ler muito sobre a história da dança e a partir da influência de alguns autores desenvolvi um imenso repúdio ao tecnicismo do balé.
Foi quando surgiu a chance de participar da audição para o Colégio de Dança do Ceará, na qual exigia que eu tivesse alguma noção de balé clássico e experiência em dança contemporânea. Além disso, tinha que apresentar um trabalho meu (Era necessário mostrar esse trabalho coreográfico para que eu fizesse o curso de capacitação de coreógrafos. Curso que desejava fazer a qualquer custo) solo ou grupal. Mostrei um fragmento do novo espetáculo do Balé Baião: "Etnia" em duo. Não teve jeito: comecei a dançar em sincronia com meu parceiro, mas em seguida quebrei com as marcações para improvisar. Para meu delírio fui selecionado e cursei o Colégio de Dança durante dois anos, tendo que trancar minha faculdade na UECE de Itapipoca (Pedagogia) e me mudar para Fortaleza. Desbravei para a capital e fui morar com o ator performance Orlângelo leal (que na época fazia o Colégio de Direção Teatral), arrumei empregos em escolas e projetos (ministrando aulas de dança para adolescentes) e passei a me dedicar totalmente ao colégio de dança.
Na semana fazia aula de balé clássico freqüentemente, como também de Dança Moderna, Contemporânea, tradicional dentre outros módulos. No final de semana ia para Itapipoca dar assistência ao Balé Baião. Foram dois anos de muita persistência, ousadia e aprendizado. Na ocasião tive acesso a aulas de contato-improvisação com os melhores professores da área. Era como se tivesse encontrado o que buscava há muito tempo e não sabia como achá-lo. Quanto mais me mexia a partir de comandos que eram lançados, mais percebia que tudo o que havia aprendido anteriormente em outras aulas começava a se manifestar em meu corpo. Pensava eu que não estava conseguindo aprender nenhuma técnica de dança, talvez por não ter atenção o suficiente, corpo apropriado ou por ter passado da idade (estava com vinte e sete anos). Tudo me vinha à cabeça, menos que na hora certa meu corpo iria revelar tudo o que absorveu. À proporção que repetia aquele movimento descoberto e dele passava para outro, percebia que minha movimentação estava bem mais diversificada, segura e expansiva. Lidar com o movimento contido e explosivo em tempos diferentes, descobrir fios condutores para o percurso do gesto, escutar o meu silêncio interior, criar pelo ato de criar sem grandes preocupações com temas ou seqüências dramáticas; deixar o movimento falar por si próprio no fluxo do acaso; tudo isso passava a ser realidade no meu corpo que se movia e nas minhas concepções teóricas sobre a dança que desejava construir com o Balé Baião.
Minha grande meta passou a ser preparação técnica. Compreendi que se eu desejava ter bailarinos que improvisassem, precisava repassar para eles todos as técnicas de dança que conhecia a fim de nutri-los com novos códigos corporais que futuramente seriam base para de criação de movimento. Precisava apressar o processo de formação da Cia de forma prática e teórica, integrando a vivência corporal com o aprofundamento e a análise técnica.
Comecei a dar aulas dentro de um cronograma mensalmente organizado, sempre incluindo a prática de contato-improvisação, trabalhando exercícios aprendidos no Colégio de Dança do Ceará e jogos inéditos criados por mim em aula. Como resultado dessas vivências montei os espetáculos: "Etnia, o baião das três raças" e "Rebento, dançando o que restou".
O espetáculo "Rebento" foi um "divisor de águas" por introduzir na Cia a criação de solos e duos. Ele rompeu com todas as metodologias de criação que anteriormente foram utilizadas nos processos de montagem do Balé Baião. Deixei de mostrar com meu corpo tudo o que deveria ser feito na coreografia para que os próprios bailarinos descobrissem o seu movimento e tempo ideal. A partir de comandos que criei dentro das aulas comecei a provocar reações nos bailarinos quase sempre aproveitadas dentro de quadros coreográficos. Depois de certo tempo notei que havia desenvolvido vários comandos bem particulares, exclusivamente da Cia Balé Baião: exercícios de alongamento e aquecimento bem específicos, jogos que provocavam a criação individual e conjunta de movimento expressivo e caminhos de composição coreográfica. Decidi repetir esses exercícios em aula para melhor fixá-los e passei a analisá-los com os bailarinos da Cia para que juntos teorizássemos sobre o que estávamos fazendo. Desta maneira criou-se uma argumentação filosófica e técnica sistematizando o que seria a dança desenvolvida no Balé Baião.
Antes de qualquer outra característica o Balé Baião não mais desenvolve espetáculos com coreografias idealizadas por alguém. Os bailarinos são "donos de suas danças" assumindo a criação e a interpretação do que compuseram, dentro de uma concepção comum a todos, que funciona como fio condutor interligando uma coreografia a outra em busca de uma "dramaticidade fragmentada", desfazendo-se do tradicional "começo, meio e fim" para dar lugar a situações dançadas que tendem a não pertencer a lugar nenhum e ao mesmo tempo a todos os tempos, a história nenhuma e a todas as histórias vividas pela humanidade.
Os espetáculos "Carne benta, no compasso do divino-profano", "Bonança, corpo e água em poesia" e principalmente "Intimidades", trazem explicitamente essas ânsias que antes eram minhas, e que hoje pertencem a todos os bailarinos-intérpretes da Cia. "Carne Benta" nos ensinou que nossa dança não se repete, acontece somente uma vez, no momento súbito de sua execução. Eternamente "morre" para sempre dar lugar a uma nova tentativa; é eterna somente enquanto é vivenciada no ato da improvisação. "Bonança" nos desafiou a dançar despojadamente, priorizando essencialmente o corpo e sua movimentação poética em interação com o espaço. "Intimidades" significou o reencontro com o “movimento natural” de nossos corpos em trânsito com o que há de mais erudito em nós. Ele é a somatória de trabalhos individuais e grupais que foram costurados dentro de uma seqüência norteadora. O caminho traçado (marcações cênicas) é o mesmo em todas as apresentações de "Intimidades", mas a movimentação de cada intérprete é momentânea, resultado de horas, semanas, meses de aula e, sobretudo, de sentimentos e emoções que fragilizam e fortalecem cada um de nós no instante que vamos dançar. Somos o que dançamos, e dançamos o que somos; não pretendemos sufocar a verdade que insiste em "quebrar" as "frases coreográficas" pré-estabelecidas. Sem a verdade do movimento vivido não nos sentimos, e não se sentir significa mentir em cena, "vomitar" gestos para preencher uma brecha. Se preciso for é necessário não se mexer para que o corpo esteja apenas em "estado de dança" repudiando o acesso de movimento. Dar somente o necessário, acolher objetivamente o corpo do outro em contextos arrebatadores, tornar visível os "portais" que levam a encontros e desencontros: bailarinos se “encontrando e se perdendo” para novamente se encontrarem, público dançando internamente deixando que a dança interior (dádiva de todos os seres humanos desde o início da história) se manifeste, seja pela petrificação do olhar devorando tudo que vê, seja pela mão, pelo pé, pela perna que mexe inconscientemente assistindo o espetáculo. Tudo isso faz parte do pensamento e da tentativa constante em desenvolver essa poética corpórea via movimentação expressiva. Sentir que minha prática de dança parte do princípio que ela deve ser sempre inacabada me deixa acordado, alerta para repensar o que estou fazendo, pronto para avaliar e repensar meu trabalho enquanto criador-intérprete, pesquisador e professor. Minha dança não passa de uma tentativa incansável, sempre estará incompleta e, ao mesmo tempo plena, refletindo a vida com suas inconstâncias, perdas, achados e buscas, características perceptíveis em todas as pessoas. Por acaso sou mais um desses seres condenados a viver a vida intensamente; eterno enquanto durar meu movimento. Não quero dançar, quero viver!
A Estética e a Poesia do Corpo fragilizado
Sempre escuto de outros coreógrafos e bailarinos que assistem aos espetáculos do Balé Baião a mesma afirmação: “teu trabalho é interessante principalmente pelos corpos comuns do elenco, pela naturalidade e tranqüilidade que demonstram em cena...”
Essa colocação por certo tempo me deixou pensativo sobre o que seriam esses “corpos comuns” e essa naturalidade, então comecei a investigar dentro da Cia que corpos estavam ali e que tipo de movimento eles me davam.
Fui percebendo que os primeiros elencos que acompanhei (foram quatro ao todo) não tiveram oportunidade de conhecer técnicas e códigos diversos de dança. Os dois primeiros elencos da Cia não desenvolveram a habilidade de criar seu próprio caminho coreográfico, resumindo-se a meros receptores de "passos". Sem falar do limite de "presença cênica" pela ausência de "corpos treinados", resultando em espetáculos repletos de coreografias complexas executadas por dançarinos que deixavam a desejar.
A partir do terceiro elenco houve um investimento prioritário na formação técnica dos bailarinos em exercício permanente da criação individual e coletiva do movimento expressivo.
Diante disso o que estava faltando nos bailarinos da Cia? A resposta veio nos laboratórios de criação. Percebi que era exatamente essa "falta" a responsável pela singularidade de meu trabalho coreográfico. Eu só precisava dar oportunidade para que cada bailarino preenchesse essa falta com autonomia e personalidade.
Desde que passei a trabalhar a partir da improvisação de cada um, não mais me incomodei com os chamados "corpos comuns", eles passaram a me fascinar. Entendi que não funcionava proporcionar nos bailarinos somente a capacidade de se manter natural, era preciso que fossem eruditos no que faziam, que seus corpos zelassem pelo intuitivo e ao mesmo tempo surpreendessem com o movimento técnico adquirido em aula. O que na verdade existe em todas as companhias de dança são corpos comuns que nunca deixarão de sentir dor se forem machucados, nem serão plenamente perfeitos mesmo sabendo executar sem erros a seqüência coreográfica aprendida. Não é privilégio do Balé Baião trabalhar com corpos comuns, pois todo corpo de qualquer bailarino traz em si características comuns à todos os outros corpos existentes no planeta, principalmente fragilidades que sempre nos alertam para a presença inevitável da imperfeição. O limite é parte do ser humano e existe para sinalizar o momento certo de não ir além, de parar para escutar, de aceitar as leis naturais da existência. No entanto, esse limite pode ser poético quando assumido em cena. Surge daí uma nova tentativa de superação desse limite, não baseada em "virtuosismos" desnecessários que geralmente fazem o público delirar e ao mesmo tempo o distancia daquela realidade cênica por não provocar adesão sensível ao que está sendo dançado. A grande novidade é permitir que em cena o corpo expresse sem temer suas fragilidades e nisso gere identificação no público, no sentido de "abrir portais" para que cada pessoa se perceba dentro do espetáculo, nas fragilidades e fortalezas dos corpos dos bailarinos. Esse "corpo comum" que se meche naturalmente é na verdade uma pessoa que resolveu dançar utilizando-se de todas as técnicas possíveis, porém priorizando valores cênicos de sua própria personalidade adquiridos no decorrer de sua história particular, em contato com distintos espaços e pessoas.
Procuro observar em aula o que os bailarinos trazem de elementos particulares que não devem ser destruídos em nome de uma técnica ensinada. Muitas vezes são "vícios" que se apresentam agressivamente aos nossos olhos, mas que naturalmente vão desaparecendo à proporção que o bailarino se alimenta de novas vivências corporais. Por outro lado, são trazidos gestos e movimentações originais que revelam a identidade e as características singulares do bailarino. Percebo com isso que a intuição jamais deve ser substituída por "receitas prontas" de como dançar. A dança deve ser insultada pelo professor e construída gradativamente pelo próprio bailarino a partir de sua pesquisa individual.
Dançar com a consciência de que o espetáculo expõe meu corpo, toda sua pequenez e grandeza, é possibilitar um novo olhar e uma nova concepção do que seja espetáculo, do que seja arte, do que seja dança. As miudezas passam a revelar suas expansões e os grandes movimentos as suas miudezas; cria-se um conflito que se apropria das inconstâncias, das buscas e achados do gesto humano.
Dançar com essas perspectivas me faz pensar que meu corpo é visitado por todos os que me contemplam. Passo a ser reflexo de todos os corpos que participam da dança de minha vida. Público e eu dançamos em sincronia estabelecendo diálogos silenciosos.







Metodologia de ensino-construção: Movimento enquanto busca particular
Atualmente são muitos os caminhos que apontam para a construção da dança particular do bailarino contemporâneo, todos partindo de princípios comuns que se nutrem de técnicas e sistemas criados por vários pesquisadores de movimento corporal reconhecidos em todo o mundo como Von Laban na Alemanha, criador da dança-teatro, dentre outros.
Quando um autodidata em dança passa a conhecer várias técnicas de codificação do movimento (Balé Clássico, Dança Moderna, afro, tradicional, entre outros), é inevitável: ele entrará em crise artística. Antes de ter acesso a técnicas, a dança do autodidata é construída a partir do pouco que se captou do mundo, estabelecendo um trabalho bem mais artesanal no sentido de fazer esse "pouco" render infinitamente. O acesso a muita informação técnica possibilita o encontro com os códigos universais de dança; conscientiza que são poucos os inventores e muitos os que aderem a invenções prontas. Ao entrar em estúdio para criar uma coreografia, a impressão que se tem é que desapareceu a “criatividade intuitiva” para que apenas haja uma reutilização artificial de seqüências coreográficas aprendidas em aula. A princípio, a necessidade de mostrar o que foi aprendido supera o antigo desejo de "criar por conta própria", e quanto a isso não há outro caminho senão o de esbanjar todas essa bagagens até que novamente se esgotem. O que acontece em seguida é um novo esvaziamento, uma ânsia em ser autêntico mantendo a consciência de que se é herdeiro de todo um processo outrora iniciado.
Falar de minha experiência particular no Colégio de Dança do Ceará e de minhas recentes atuações na Escola de Dança do Balé Baião é falar de descobertas que reverberam no trabalho que desenvolvo enquanto criador e artista-docente não somente em Itapipoca, mas na região e estado, experiências que me fizeram perceber o quanto é fundamental proporcionar ao aluno-pesquisador logo em seu primeiro contato com a dança o acesso a si mesmo, a seu corpo enquanto potencial sensível, afetivo e criativo.
Dentro dessa metodologia contextualizada, inserida na realidade concreta do corpo do adolescente, deve-se dar condições para que ele conheça o que já foi criado e nisso enriqueça seu acervo de conhecimento em dança. Logo após é preciso que se questione sobre a dança buscada pelo aluno; que dança se quer construir? Este será o insulto que provocará rompimentos com tudo o que fora absorvido anteriormente, e por certo fará nascer uma verdade individual que deixará evidente a beleza e a dignidade de um corpo falando de si mesmo, compartilhando suas especificidades com cada pessoa que faz o todo do público.
A dança do Balé Baião é resultado da fusão das danças particulares de cada bailarino da Cia. No decorrer do processo de formação dos bailarinos foram se definindo aptidões de movimento a partir de "facilidades" que foram descobertas individualmente em desafios lançados nas aulas. Essas facilidades foram acolhidas não como definição de estilo, mas como pressupostos para se investigar e possivelmente construir algo. Esse "fácil" na dança apontado pela Cia não significa conformismo diante do que se sabe fazer, e sim uma "base matriz" que vai se complexificando no exercício da repetição e de quebra súbita do movimento.
Cada bailarino do Balé Baião procura ter a consciência de que não há "dança definitiva" por não existir "dança acabada"; sempre há problemas a se resolver no movimento e uma constante insatisfação que motiva para uma nova tentativa. Viver é fundamentalmente experimentar!
A dança de Cia apresenta-se, pois, como inacabada por estar sempre se construindo. Por mais que cada solista revele uma extrema segurança e objetividade na execução do gesto, sempre existe embutida neste uma flexibilidade disposta a repensar e reformular esse movimento a partir de novos anseios e focos emergentes.





Movimento enquanto construção conjunta

Em se tratando de improvisar com o outro estabelecendo troca de sinergia no ato de dar e receber movimento, se faz necessário antes de qualquer coisa uma profunda intimidade com a pessoa que se propõe a ser parceira da criação. Uma companhia de dança, no caso do Balé Baião que existe há 15 anos com um elenco permanente de 10 anos, dificilmente deixará de construir uma trajetória de convívio e companheirismo perpassando as fronteiras do profissionalismo.
A experiência de grupo permanente, de estar em contato constante com aqueles corpos, de conhecê-los apuradamente, possibilita segurança mesmo diante das incertezas que acompanha qualquer improvisação. Conhecer o parceiro, suas potencialidades e limitações, é garantir uma confortável entrada e saída de movimento, um diálogo claro com a "fala corporal" do outro sem bloqueios físicos e psicológicos.
Os membros da Cia Balé Baião antes de serem parceiros de trabalho são vizinhos, moram na mesma rua e bairro, a maioria se conhece desde a infância e adolescência, são amigos confidentes que se encontram todos os dias, independente de ter ou não aula de dança. Existe entre eles uma cumplicidade que influencia inevitavelmente na criação coletiva do movimento da Cia. A afeição que existe entre todos gera uma dança acolhedora e tolerante, uma ação de escuta e resposta diante do que está sendo perguntado pelo corpo do outro no momento mais oportuno.
A convivência de seis anos tornou perceptíveis as "diferenças" que fazem de cada bailarino da Cia pessoas de personalidades singulares. Paralelo a isso ficou evidente o que há de mais comum entre todos, tanto no que se refere a condições físicas, reações psicológicas e principalmente na qualidade de movimentação. Hoje se percebe claramente na Cia, corpos que buscam conservar suas especificidades, mas que manifestam "sincronias conscientes" de gestos e movimentos que parecem fazer de todos um só corpo e uma só expressão com equidade.
No decorrer dos anos, muitos jogos e exercícios foram se codificando à proporção que foram vivenciados pela Cia. São comandos que apressam o processo de descoberta e construção do movimento de qualquer pessoa que deseje começar a dançar. Fui percebendo que é possível criar uma unidade móvel nos bailarinos a partir da diversidade de corpos e bailados que se apresentam em nossa escola de dança. E o melhor de tudo, é que não precisa de seis ou doze anos para isso; existem formas de adiantar a chamada formação do aluno de dança, no nosso caso, alunos adolescentes entre 14 e 20 anos de idade.
A linguagem desenvolvida por uma companhia de dança é sua verdade exclusiva. O Balé Baião consegue hoje repassar sua verdade não somente pelos espetáculos que produz, mas, sobretudo, através do sistema de ensino iniciado em julho de 2004 na escola que fundou. Adolescentes que nunca pensaram em dançar e outros que sempre quiseram isso, mas não sabiam como começar, estão criando individualmente e em grupo a dança contemporânea de Itapipoca sob orientação dos bailarinos da Cia. Os professores de dança se utilizam de exercícios próprios do Balé Baião nas aulas de consciência e expressão do corpo, contato-improvisação e composição coreográfica.
A dança do Balé Baião, algo que antes parecia impossível de ser executada por outras pessoas, está sendo vivenciada com vigor por novas gerações de bailarinos, cúmplices de uma dança que antes de tudo passou a significar agrupamento, integração de pessoas que querem produzir profissionalmente nutridas pela paixão, pela vida em grupo. Não dá para compreender dança coletiva ou criação conjunta de movimento corporal se existe discórdia e inimizade entre bailarinos de uma mesma companhia. A dança e o corpo não mentem jamais... É fundamental que o "bailarino tal" esteja muito bem com todo o "corpo de baile" para que consiga ser pleno na execução de seu movimento, e nisso possa ser um só corpo com os outros na sincronia das diferenças. Antes do ensino da dança é necessária a fomentação de uma consciência de grupo, de vivências que valorizem a construção de um senso humanitário centrado na tolerância e na cumplicidade.

Espetáculo "Em 04 Compartimentos": quatro solos discutindo virilidade masculina contemporânea.

O espetáculo manifesta as sutilezas e expansões dos corpos híbridos em movimento, estabelecendo em cena coreografias casuais nascidas de tensões e improvisações, divididas em quatro solos: “Menino não dança”, “Cumplicidade na contramão”, “Amores difíceis” e “Submerso”, trabalhos que ganham forma no contato direto com a plateia e se desenvolvem através de técnicas de improvisação, construídas coletivamente, mas tendo como suporte principal a individualidade e singularidade de cada intérprete, com suas buscas, conflitos e achados diferenciados.

“Em quatro compartimentos” é resultado de longas investigações idealizadas por seus intérpretes-criadore s - Cacheado Braga, Glaciel Farias, Benedito Max e Gerson Moreno -, que desde 2005 aprofundam os códigos que fazem a linguagem específica da Cia. Balé Baião, através de vivências em aula e registros escritos e visuais de exercícios corporais, que geram a movimentação individual-coletiva e metodologia de composição coreográfica singular.

Em cena, quatro homens distintos, de idades e experiências de vida e de dança peculiares, criam quatro estados corporais singulares em quatro atmosferas-comparti mentos acarretados de pensamentos e metáforas sobre os anseios humanos em tempos contemporâneos. Em comum, o desejo de dizer e de calar, todos em atmosfera de diálogo, em compartimentos que se rompem via contato, em lugares verdadeiros doravante invisíveis aos olhos dos ausentes. Do homem de trinta e poucos anos ao homem de dezessete, universos masculinos em flor, inauguração de uma virilidade fragilizada, ininterruptamente afetada por delicadezas, sutilezas e inquietudes.

Para sua realização, o espetáculo é pensado e se desenvolve exclusivamente com o posicionamento próximo da plateia em relação aos intérpretes. Fazer da dança esse canal direto com o público, em tempos de crescente falência do contato humano em detrimento das mídias de ponta, estabelecendo diálogos capazes de provocar transformações pessoais e sociais, surge para a Cia. Balé Baião como forma de resgatar uma arte comprometida com a emancipação da vida. Desta forma, “Em quatro compartimentos” se alimenta da pretensão de recuperar esses valores na cena, principalmente o aspecto da intuição do bailarino que gera verdades criativas no ato da improvisação em solo e contato.

O espetáculo “Em quatro compartimentos” faz parte da programação de maio do projeto “Quinta com Dança” do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, contemplado por edital de estímulo à dança no Estado, lançado pelo Instituto de Arte e Cultura da Ceará (IACC). O espetáculo segue na programação do Centro durante todo o mês de maio.

Serviço - Em quatro compartimentos, da Cia. Balé Baião, todas as quintas, às 20 horas, no Teatro Dragão do Mar, no Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura. R$2,00 / R$1,00. 45 minutos. Classificação: 14 anos.